Jesus, o sempre menino
Jesus, o sempre menino “Eu te asseguro, não chore não viu Eu voltarei, viu, pro meu sertão.” Asa Branca, Luiz Gonzaga “E o que me importa Essa dor feito faca no peito? Ninguém mais arranca, Ninguém dá mais jeito” O que importa?, Gonzaguinha À minha mãe, mulher forte, filha da terra Pouco a pouco a luz invadiu o pobre casebre. Frestas e frinchas vertendo claridade, feixes solares de ouro, dia nascendo por entre as telhas. A madrugada findava. E sempre mais a claridade entranhava-se... Nascia o menino Jesus, filho da terra seca. Menino Jesus já nascido pobre e oprimido; filho de Maria, nordestina arrimo de família, mulher abandonada pelo marido com mais outros tantos moleques. Pouca água pra beber, barriga terrivelmente protuberante cheia de verme e de vazio; e pés descalços: o único prazer do menino era o bicho-de-pé, coceira gostosa que tinha de acabar um dia. Pobre não goza por muito tempo. Jesus floresceu qual erva planta da terra, atarracado, troncudo, olhos batidos, pele grossa que nem bicho esquivo do mato, cabelo duro e alma triste fatigada da vida não vivida. Aos seis anos, Jesus, moleque feio, sujo, parasitado por verminoses e piolhos e carrapatos, começou a pegar na enxada; a família era grande justamente pra poder ter muitas mãos na lida. Seu lazer, quando sobrava um tempo na roça que quase nunca produzia o suficiente para alimentar todas as bocas, era brincar na beira do rio barrento de nenhum peixe e muita pedra. Conheceu desde cedo a fome. A fome que tem mão e revira lá no fundo o bucho vazio de quem não come ceifou a vida de muitos dos seus, se lembrava bem disso. Eram crianças miudinhas que morriam antes do primeiro ano de vida, sem contar os velhos; pareciam zumbis em pele e ossos. Por isso, todo menino que precocemente sem infância já ia crescendo desejava ir pra cidade grande em busca de um futuro melhor, deixando pra trás mulheres e crianças desamparadas, largadas à sorte. Quanta lágrima vertida! Se fosse chuva lavaria a terra, fecundaria as plantações e regaria as almas de sonhos empoeiradas convertidos em barro duro. O irmão mais velho tinha ido pra lá ganhar a vida; mas ainda não dera notícia. Não mandara uma carta que fosse, nem um bilhetinho redigido por um amigo prestativo, porque dali, pessoa alguma sabia o beabá. E Maria secava como as árvores da paisagem a resmungar pelos cantos impropérios contra a vida, apegada à imagem do seu Padre Cícero, o único que parecia, às vezes, se lembrar do povo esquecido. Depois foi o irmão do meio e a irmã mais nova, geniosa da peste; tinha a revolta no coração. Caiu na vida. Virou puta!, dizia a mãe desgostosa, que, aos poucos, pretendia esquecer a filha, a sua tinhosa Madalena, inesquecível. Maria, a mãe de Jesus, cansada de sofrer, envelhecendo a cada pôr-do-sol um ano mais; e Jesus, seu filho dileto, partia. Teria sorte melhor! Mandaria buscar os seus depois que comprasse uma casinha no morro, lá na cidade grande. Eles iam ver! E Jesus, já moço, foi embora com o vento que soprava a terra enchendo tudo, dos poucos móveis de pau até as profundezas das almas, com um ranço avermelhado que era misto de suor e lágrimas. E não tardou, como ele disse, a chegar notícias sobre ele. Maria chamou a filha caçula, a única que sentou no banco da escola (somente até o primário) pra que lesse a carta do seu filho, o sempre menino Jesus, e ouviu, caindo num silêncio de morte, que o fruto do seu ventre, aquele que prometera salvar os seus e botar o pão na mesa, morrera com dois tiros no peito, quando, sem sucesso, tentou assaltar um ônibus que ia do centro da cidade em direção ao subúrbio. Costaneto, 19 Outubro 2009.
Escrito por Leonardo às 10h28
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